quarta-feira, 27 de julho de 2011

Um debate em Estudos da Tradução?

[ I ]

"A tarefa do tradutor" de Walter Benjamin é tido e por alguns considerado, a partir da perspectiva dos estudos da tradução, como um marco na teorização sobre a tradução no século XX. A tradução de Susana Kampff Lages para o texto de Benjamin acrescenta um outro termo ao título, combinando 'tarefa' com 'renúncia'. Não sei ao certo, pois me escapa, por que motivo a tradutora traduziu o título do artigo por "A tarefa-renúncia do tradutor". Talvez ela tenha feito isso pelo fato do termo 'Aufgabe', no original em alemão, permitir essa variação em seu significado, estendendo-se até 'renúncia' e a tradutora pretendeu ampliar o significado do termo 'tarefa' na sua versão para o português. Esta ideia parece se confirmar, pois uma olhada rápida em um dicionário on line traz o seguinte conjunto de termos, nesta sequência, para o termo em alemão: tarefa, trabalho, missão, função, renúncia, abandono.

Gostaria que fosse possível incluir mais um termo nesta lista: 'compromisso'. Isso talvez não seja possível, aproximar 'compromisso' de 'Aufgabe'. Não tenho condições de, neste momento, ler toda a (nem mesmo parte da) crítica e todas as (nem mesmo algumas das) traduções que poderia ler do texto de Benjamin para verificar se o que ele argumenta em seu artigo permitiria, ou não, a aproximação de 'Aufgabe' a 'compromisso'. Contudo, 'compromisso' me parece próximo o suficiente de 'missão', que também aparece na lista de significados para 'Aufgabe'. Há uma publicação que talvez possa ajudar a encontrar algumas idéias para uma possível definição para esta questão: trata-se do volume organizado com algumas traduções do artigo de Benjamin. Editado por Lucia Castello Branco (Fale/UFMG, 2008), "A tarefa do tradudor, de Walter Benjamin: Quatro traduções para o português" traz quatro traduções do texto de Benjamin, em um único volume.

já foi dito que, na história e historiografia (dos estudos) da tradução, o mencionado artigo de Benjamin está para o século XX, assim como o famoso texto de Schleiermacher, "Sobre os diferentes métodos de tradução", está para o século XIX --em importância e relevância para a reflexão sobre a tradução. Escapa-me o valor que esta comparação poderia ter em termos epistemológicos para o conhecimento positivo sobre o fenômeno da tradução. O que parece evidente nesta comparação é que apesar dela ter sido elaborada na forma de uma razão:
'b' (Benjamin) está para 'v' (séc. [v]inte), assim como
's' (Schleiermacher) está para 'd' (séc. [d]ezenove)

O que a comparação na forma acima de fato realiza é um argumento na forma ad verecundiam (ou, 'argumento de autoridade'). Isto quer dizer que o valor (ou significado) da afirmação se fundamenta na autoridade de seu autor --e neste caso, como veremos, temos pelo menos duas importantes autoridades em questão). Um argumento de autoridade possui geralmente a forma:
O autor 'A' afirma 'B'; 'A' está sujeito a ser reconhecido como autoridade em um determinado campo do conhecimento; portanto 'B' é verdade (ou tem grande chance de ser).

Tradicionalmente, este tipo de argumento é classificado como uma falácia lógica, porém prefiro não compreende-lo dentro destes limites, para não incorrer no sentido que a lógica dialética tradicional atribui às falácias, isto é, o sentido de 'erro lógico'. Prefiro um outro sentido atribuído, contemporaneamente, às falácias. Refiro-me ao sentido pragmático da lógica informal e de várias correntes da teoria da argumentação em que uma falácia, mais do que ser um erro lógico (uma função puramente formal) possui a função de persuadir (e nisto encontra seu valor). Quem de nós não nos deixaríamos levar por algum argumento de autoridade, principalmente quando ele parece confirmar uma crença que queremos manter?

E aqui volto à ideia de 'comprometimento' que mencionei acima. É inegável o valor das ideias de Benjamin e de Schleiermacher para a reflexão sobre a tradução. Acredito, porém, que o fato de um argumento que possui um efeito significativo de afirmar a importância da autoridade ao querer dizer que a autoridade 'A' representa para o período histórico 'x' o mesmo que a autoridade 'B' representa (e não, representou) para o período histórico 'y', isto não torna o argumento verdadeiro e, curiosamente, também não o invalida. No entanto, isto não significa que seja preciso acreditar que aquilo que todas estas autoridades afirmam possuem algum valor de verdade instrínseco que é preciso encontrar, seja onde for, estejamos quando e onde estivermos (isto é, universal). É neste ponto que eu gostaria de chegar trazendo junto comigo a ideia de 'compromisso'. Qual é o compromisso do tradutor? São vários os compromissos do tradutor: éticos, morais (incluindo os de autoridade), textuais, linguísticos, teóricos, racionais, epistêmicos, cognitivos, sociológicos, estéticos, etc. Dentre estes encontra-se o compromisso de suspender a adesão a uma crença (um valor, um significado) quando ela parece não refletir uma  hipótese plausível o suficiente a respeito de um determinado acontecimento, fato ou objeto no mundo. O argumento aqui considerado de analogia entre Benjamin e Schleiermacher, apesar de válido, é um exemplo que nos obriga a suspender a adesão a sua plausibilidade. É fácil de perceber isso: admitindo ou negando sua plausibilidade, pouco se modifica o efeito persuasivo que ela possui. Por isso a chamei de frase de efeito. Ela pode ser verdadeira e válida, porém, pode também ser falseada, e aí se encontra sua força.

[ II ]

Como poderia, então, ser falseado o argumento de autoridadede apresentado acima? Por exemplo, ou questionando a relação que ele parece querer estabelecer entre o pensamento de Benjamin com o de Schleiermacher; ou, então, questionando a proporção incial que afirma a importância do artigo de Benjamin para o século XX. As duas linhas de questionamento estão relacionadas, farei a tentativa de mostrar como poderiam ser questionadas conjuntamente. Contudo, sem entrar nos méritos e no conteúdo dos dois textos referidos, é praticamente impossível de se apresentar uma análise minimamente plausível. No entanto, tentarei não incorrer neste equívoco e me limitarei a uma passagem muito pequena do texto de Benjamin.
[...]

[** Continua ]